Convidado Especial - Tato Marinho 2ª parte

Convidado Especial - Rui Tato Marinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia
“Temos de colocar o fígado na cabeça dos portugueses”

Divulgamos a segunda parte de uma entrevista ao nosso Convidado Especial Rui Tato Marinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG).

Uma conversa sobre as doenças do fígado, que são a sétima ou oitava causa de morte em Portugal, incluindo o cancro do fígado. Nesta entrevista, Tato Marinho expõe a necessidade de que as análises ao fígado sejam feitas de modo regular, como acontece com outras ditas de rotina. Porque falamos de doenças suscetíveis de prevenção e de muitas mortes evitáveis e precoces.

O cancro do fígado surge-nos como uma doença silenciosa. Damos-lhe pouca atenção?

O cancro do fígado, ou carcinoma hepatocelular, tem vindo a aumentar e continua a ser um cancro de elevada mortalidade. Nos últimos 10 a 15 anos duplicou o número de casos e o número de mortes. A estatística a que temos acesso em Portugal junta o cancro do fígado ao das vias biliares. No último ano, registaram-se pelo menos 1.500 mortes.

Portanto, a mortalidade continua a ser muito elevada?

A evolução na Medicina, de forma genérica, tem sido fantástica. Nalguns campos, a evolução tem sido mais lenta e talvez o carcinoma hepatocelcular seja um desses casos. Mas até há uns 15 anos era um cancro que tinha uma mortalidade de 100%. A mortalidade continua a ser brutal, uma vez que ao fim de um ano só cerca de 5% dos doentes estão vivos.

Mas a evolução tecnológica e científica permitiu-nos que já não seja um cancro 100% mortal, com a conjugação de cirurgia, transplante hepático, intervenção da imagiologia e fármacos dirigidos às células tumorais. Isso foi permitindo que, em pequenos passos, vamos aumentando a sobrevivência dos doentes. Nalguns doentes até já conseguimos a chamada resposta completa. Tenho doentes vivos há 5 anos.

Parece ser, de qualquer modo, um cancro pouco falado ou divulgado. Há estigma associado?

Não penso que haja estigma. Trata-se mais de ser necessário investir em literacia em saúde. Temos de informar mais. Uma das minhas batalhas é, precisamente, colocar o fígado na cabeça dos portugueses. Fazer compreender que as doenças do fígado são a sétima ou oitava causa de morte em Portugal. Ou seja, estão no top 10 da mortalidade dos portugueses. E são mortes evitáveis e tratáveis.

Sendo evitáveis, como se explica que os números continuem em crescimento?

Uma doença do fígado começa por uma alteração das análises do fígado, que são muito simples de fazer, bastando para isso uma análise de uma pequena quantidade de sangue, em qualquer laboratório.

Defendo que o fígado deve ter direito a análises de rotina, entrando na avaliação que as pessoas fazem frequentemente quando vão ao médico. E estamos a referir-nos a uma análise que não é complexa nem cara.

Uma dessas análises designa-se ALT, sendo fácil de memorizar, porque tem o mesmo nome duma tecla dos nossos computadores. Se os valores estiverem elevados, pode ser o primeiro alarme para que possa existir uma doença do fígado, antes de uma cirrose ou de um cancro.

Pensamos que cerca de um milhão de portugueses terão análises ao fígado alteradas. E estas alterações aumentam o risco de morte, até mesmo por causa cardíaca.

Tendo uma análise ao fígado alterada, teremos que saber qual a razão dessa anomalia. As causas principais são três: excesso de álcool, hepatite C e fígado gordo (esteatose). Além do mais, é uma excelente altura para se adotar estilos de vida mais saudáveis, ou tratar a hepatite C, para vivermos mais tempo e com mais saúde.

Muitos portugueses têm excesso de peso e obesidade, o que também provoca alterações nas análises do fígado, o designado fígado gordo, que também é um risco bem real para o cancro do fígado. E mais de 2,5 milhões de portugueses têm fígado gordo.

Em resumo, quais são então os principais fatores de risco envolvidos na doença do fígado ou no cancro do fígado?

O álcool será o principal, depois temos as hepatites víricas, predominantemente a hepatite C, e o fígado gordo.

A nível mundial, o factor de risco mais comum para o carcinoma hepatocelular é a hepatite viral (B ou C) que pode causar inflamação do fígado, hepatite crónica e eventualmente cirrose.

Mas também o estilo de vida, sobretudo a alimentação, se apresenta como fator com muito relevo e peso nesta patologia. Um factor de risco cada vez mais importante para o desenvolvimento de cancro do fígado, por exemplo, é a doença hepática gorda não alcoólica, ligada precisamente ao excesso de ingestão de alimentos muito calóricos e à obesidade.

O álcool, a hepatite C e a obesidade são todos factores de risco bem comprovados para cancro e não só o do fígado.

Em relação às hepatites, sobretudo falando da Hepatite C, que já tem tratamento e cura, podemos esperar que isso provoque uma redução dos casos de cancro do fígado?

A Hepatite C é um fator de risco importante. Defendemos também que qualquer um de nós devia fazer uma análise à Hepatite C pelo menos uma vez na vida. É, alias, uma doença já com cura. Já estamos a assistir a uma redução de casos desta doença nas nossas consultas.

Mas a diminuição do número de casos de cancro do fígado não tem ainda acontecido. Porque há outra causa e fator de risco em crescimento, que é precisamente o fígado gordo, que pode levar a um desenvolvimento de cirrose e de cancro.

Está em lançamento uma campanha da SPG precisamente a alertar para a importância de termos mais atenção ao fígado. Qual é o objetivo dessa campanha?

No fundo, é informar as pessoas, para evitar sofrimento e mortes, diagnosticando mais cedo, corrigindo quando a doença está instalada e tratando, com o objetivo de que se viva mais tempo e de forma saudável.

Estando a saúde do aparelho digestivo em condições, iremos viver mais tempo. O fígado está integrado no organismo e, corrigindo ou evitando as doenças do fígado, ajudaremos a controlar fatores de risco - como álcool ou excesso de peso - que também provocam outras doenças.

Não é só uma visão paroquial do fígado, mas é uma visão mais global da saúde.

Não se pode viver sem fígado. Posso viver sem um rim, até sem os dois com apoio de máquinas de substituição, posso viver sem um pulmão, sem um olho, sem um braço ou perna. Mas não posso viver sem fígado.

Falámos dos comportamentos e fatores de risco que influenciam as doenças de fígado e também todas as outras. Como avalia esses comportamentos durante a pandemia? Tendeu-se para uma vida mais ou menos saudável?

A sensação que temos é a de que a pandemia vai ter um impacto muito grande nas adições, com o confinamento e stress e ansiedade associados. E as doenças do fígado acabam por estar muito relacionadas com adições, como o álcool ou a obesidade. Faço parte de uma nova competência da Ordem dos Médicos, a Adictologia Clínica, e o que se antevê é que a pandemia veio influenciar negativamente esses comportamentos.

Nas consultas, o que já verifico é uma tendência para aumento de peso, nalguns casos em 10% do peso corporal. O que pode ser compreensível, porque o confinamento reduziu a atividade física a nível nacional, dificultou o exercício físico e até as competições desportivas encerraram.

Tratar doentes com cancro do fígado envolve certamente um conjunto alargado de profissionais. As equipas multidisciplinares são fundamentais nesta área?

Diria que as equipas multidisciplinares são o estado da arte. Já vínhamos a fazer esse caminho há algum tempo. No fundo, tentando trabalhar de modo a que um doente não precise de ir a cinco consultas diferentes e juntando oncologista, cirurgião, enfermeiro, radiologista, assistente social, paliativista, internista, gastrenterologista e hepatologista. Como disse, já nos encontrávamos a fazer esse caminho, que é importante. Isso ficou facilitado com a ‘geração Zoom’, promovendo reuniões multidisciplinares à distância. Muitas destas equipas configuram o funcionamento de Equipas de Alto Desempenho (High Performance Teams).

Este trabalho multidisciplinar facilita muito o trabalho dos profissionais de saúde e, sobretudo, a vida do doente.

Na sua área de especialdiade, a gastrenterologia, como classifica os avanços científicos e médicos nos últimos anos?

Noto uma aposta muito forte nesta área. Em retrospetiva, analiso o que ainda não existia quando concluí o curso de Medicina. Em 30 anos, o avanço foi brutal. Foram descobertos vários vírus das hepatites, desenvolveram-se vacinas para alguns e também tratamentos e até curas, como no caso da Hepatite C. Em termos de auxílio ao diagnóstico, os avanços também foram brutais e fantásticos. Três prémios Nobel estão relacionados com a área da descoberta de seres vivos como o vírus da hepatite B, hepatite C e helicobacter.

Temos de valorizar como é bom termos oito décadas de esperança média de vida. Devemos isso a muitos portugueses, políticos, economistas, jornalistas, investigadores, profissionais de saúde, etc. Tem sido um trabalho em equipa. A grande maioria dos países do Mundo não o consegue. Nestes 30 anos de profissão, os portugueses aumentaram a esperança média de vida em quase mais 10 anos. Se olharmos para os 2.000 anos da nossa civilização, percebemos que em 30 anos conseguimos aumentar a nossa esperança de vida em 10 anos. Há 100 anos, vivíamos até aos 40 anos, ou seja, duplicámos a nossa a esperança de vida. E isso muito se deve ao avanço científico, tecnológico, terapêutico, da Medicina e da sociedade em geral.

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