Dengue: "O verdadeiro perigo é a dimensão do surto"
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O aquecimento global e o aumento do turismo transformaram o mosquito do género Aedes numa realidade europeia, deixando Portugal em alerta. Longe de ser apenas uma "doença de viajantes", a dengue exige uma resposta clínica cirúrgica para evitar o subdiagnóstico e a sobrecarga do sistema de saúde. Em entrevista, Miguel Castanho, investigador e Group Leader no Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), explica como as alterações climáticas aceleraram esta ameaça, o complexo quebra-cabeças das vacinas, a importância dos testes de diagnóstico e o papel da ciência portuguesa na linha da frente da investigação europeia.
A dengue já foi vista em Portugal como uma "doença de viajantes". No entanto, os surtos na Europa têm aumentado. Qual é a real dimensão do impacto que a dengue pode ter numa sociedade que não está historicamente habituada a conviver com esta doença?
Podemos olhar para dois exemplos. O primeiro é o Brasil: quando a dengue lá chegou em grande escala, causou um elevado número de infetados em simultâneo e o colapso do sistema de saúde. O grande perigo da doença não é propriamente o risco individual, já que a maioria das pessoas não desenvolve consequências graves, embora existam mortes e surjam sequelas neurológicas a longo prazo em alguns casos. O verdadeiro perigo é a dimensão do surto: quando muita gente precisa de assistência ao mesmo tempo, os sistemas de saúde colapsam.
O segundo exemplo é mais próximo: o grande surto na Ilha da Madeira, o primeiro em solo europeu. Sendo uma ilha com um microclima próprio, o que aconteceu lá não reflete necessariamente o resto da Europa, mas foi uma chegada súbita a um território não preparado onde, apesar de não haver colapso, houve um grande susto. O que não queremos é que isto se repita, com multidões a acorrerem aos hospitais e centros de saúde e pessoas sem conseguir assistência.
Sabemos que as alterações climáticas e a globalização são os grandes motores para a expansão do mosquito vetor. Do ponto de vista biológico e virológico, o que torna o vírus da dengue tão "eficaz" a adaptar-se a novas geografias como a nossa?
Na realidade, a grande transformação não é do vírus em si, mas sim do seu vetor: os mosquitos do género Aedes. O impacto do aquecimento global e da globalização mexe diretamente com a distribuição destes insetos.
Viajamos mais, há mais turismo e fluxos migratórios, e esse trânsito constante facilita o transporte de espécies para outras áreas geográficas em aviões, barcos e contentores. É o que acontece, por exemplo, com o mosquito.
Historicamente, o inverno mais frio era o que nos protegia na Europa contra a permanência de mosquitos mais próprios de regiões tropicais e subtropicais. Com o aquecimento progressivo, algumas destas espécies conseguem agora viver e permanecer cá. O clima europeu está a tornar-se propício à permanência dos mosquitos Aedes. Populações de mosquitos já avançam pelo norte de França, Alemanha e Países Baixos, tendo começado pelo sul, na zona de Itália. A sua instalação na Europa é hoje um dado adquirido e é um facto, representando um risco real de cadeias de contágio.
O mosquito vetor já foi detetado em várias regiões de Portugal (como o Algarve, Alentejo e a região de Lisboa). Qual é, atualmente, a sua maior preocupação em relação à preparação do nosso país? Estamos a falhar na prevenção ou na vigilância epidemiológica?
A dengue tem uma particularidade: ao contrário da regra geral, quem é infetado uma vez pode ficar mais suscetível e desenvolver uma doença mais grave numa segunda infeção. Isto acontece porque os anticorpos da primeira infeção podem,ao invés de proteger, facilitar a entrada do vírus nas células na eventualidade de uma segunda infeção. Este fenómeno é um quebra-cabeças para a vacinação. Existem vacinas, mas ainda não são uma arma para utilização em larga escala.
Como não temos vacinas simples e eficazes, nem medicamentos muito específicos, "vamos atrás do mensageiro", ou seja, do mosquito. Em Portugal, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge faz uma excelente vigilância epidemiológica, capturando e contabilizando insetos ao longo do ano para aferir o risco de surtos. Está a ser feito o que é necessário. Importa agora continuar a investigação de medicamentos antivirais, sobre a imunologia associada à infeção, sobre o desenvolvimento de vacinas e estar atento à dinâmica do vírus noutros países europeus ou em territórios aos quais estamos muito expostos, como o Brasil.
Em Portugal, os sintomas iniciais da dengue podem ser facilmente confundidos com uma gripe forte ou outra virose respiratória. Corremos o risco de sub diagnosticar a dengue por falta de rotina ou alerta clínico?
Quase todas as viroses começam da mesma maneira: febre, dores de cabeça, dores no corpo e tosse. Para discriminar a dengue, precisamos de análises poderosas. Os testes rápidos e os testes PCR (mais complexos e laboratoriais) assumem aqui uma importância capital. Quanto mais precocemente identificarmos a dengue, melhor orientamos a pessoa para cuidados, mesmo que sejam simples, como a hidratação e o controlo da febre. Podemos recomendar que fique atenta aos sintomas de hemorragias internas (a dengue grave) e que, enquanto recupera de sintomas leves, possa ficar em casa com vigilância e algum confinamento para evitar a exposição a ambientes com mosquitos daquela espécie.
Mas o diagnóstico rápido, acessível e fiável também é uma arma de grande valor para quem não tem dengue e para o sistema de saúde no geral. Se confirmarmos a dengue descartamos um caso de uma hipotética infeção bacteriana e, portanto, evitamos prescrever antibióticos desnecessariamente, o que alivia a grande carga de um dos imensos problemas que temos hoje: a resistência antimicrobiana. Além disso, ao direcionar corretamente as pessoas sem necessidade de mandar todos os casos suspeitos para as urgências, poupamos recursos e garantimos que os doentes crónicos continuam a ter os hospitais operacionais e a resposta de saúde que necessitam.
Qual é a importância de termos testes de diagnóstico rápidos, acessíveis e capazes de diferenciar a infeção por este vírus logo numa fase inicial?
A ciência é uma construção coletiva, como um edifício onde todos põem tijolos. Neste domínio em concreto, Portugal tem a grande vantagem de estar muito próximo do Brasil, que tem um conhecimento acumulado imenso sobre vírus transmitidos pelo Aedes (como dengue, Zika ou Chikungunya), e muitos grupos portugueses colaboram ativamente com os brasileiros.
Vamos pondo os nossos tijolos no edifício da luta contra a dengue e no nosso laboratório [Miguel Castanho Lab no GIMM], lideramos um consórcio europeu com financiamento de Bruxelas para o desenvolvimento de antivirais de largo espectro. Participamos ainda num outro projeto, liderado pelo ITQB, integrados num consórcio que desenha novas moléculas virtualmente no computador, através de inteligência artificial, para depois as testar em laboratório. O objetivo é criar uma metodologia em que, se amanhã surgir um "Vírus X" ou uma nova pandemia, possamos aplicar esta ferramenta e ter medicamentos utilizáveis logo no dia zero.
Além do controle do mosquito, a ciência tem corrido atrás de vacinas e antivirais. Qual é o papel da investigação científica feita em Portugal neste combate global e o que podemos esperar da indústria farmacêutica nos próximos anos para travar a dengue?
O papel da investigação em Portugal é contribuir para o avanço do conhecimento nesta áreas. É difícil alguém trazer uma solução sozinho; a ciência é um edifício que temos de ir construindo. Em relação à dengue, os grandes desafios são otimizar as vacinas para lidar com o problema dos anticorpos que facilitam a infeção, e desenvolver antivirais de largo espectro. Se forem antivirais ativos contra vários vírus, poderão até ser medicamentos importantes para o dia zero de uma próxima pandemia, contra um vírus ainda desconhecido. Portugal tem um posicionamento particular de proximidade com o Brasil, o que nos deixa numa situação excelente para aceder a dados e colaborar. É o que fazemos no GIMM e em colaboração com o ITQB, como referi anteriormente.
O que Portugal faz tipicamente mal e pode fazer melhor é a colaboração entre a academia a a indústria. A maior parte da investigação é académica e começa e acaba na academia. A ligação à indústria farmacêutica seria importantíssima, mas exige um esforço de aproximação de parte a parte. É fundamental impor Portugal globalmente como um país produtor de conhecimento em saúde. Não apenas o Portugal do turismo de sol e praia, bom para passar férias, mas um Portugal que se leva um bocadinho mais a sério, que arregaça as mangas e produz bens que são importantes para o progresso da humanidade
NP-PT-00426 - julho 2026