Tuberculose em Portugal: travar o contágio, humanizar os cuidados
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Associada por muitos ao passado, a tuberculose continua a ser uma realidade bem presente no panorama da saúde pública mundial e nacional. Com sintomas insidiosos e muitas vezes confundidos com outras patologias respiratórias, o diagnóstico tardio continua a ser um dos principais entraves no combate à doença, perpetuando o risco de contágio.
Em entrevista, Luís Coelho, pneumologista e coordenador do Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) Dr. Ribeiro Sanches da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, faz o retrato dos desafios atuais no diagnóstico e rastreio da tuberculose. O especialista aborda a evolução das tecnologias de diagnóstico molecular e dos testes de infeção latente, reflete sobre como as barreiras socioeconómicas condicionam os objetivos fixados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e reforça a urgência de combater o estigma social que ainda isola os doentes e afasta as populações mais vulneráveis dos cuidados de saúde.
A tuberculose é muitas vezes associada ao passado, mas continua a ser uma realidade atual. Quais são os principais sinais de alarme a que as pessoas devem estar atentas e porque é que o diagnóstico precoce da tuberculose faz toda a diferença?
A forma mais comum de tuberculose é a que afeta os pulmões. Como os seus sintomas iniciais, como a tosse com expetoração, são genéricos e comuns a muitas outras doenças, nem sempre é fácil identificá-la logo de início.
A suspeita surge quando essa tosse se arrasta por semanas ou meses e vem acompanhada de outros sinais pelo corpo: febre baixa (geralmente ao final do dia), perda de peso, falta de apetite e um cansaço invulgar no dia a dia. Por surgir de forma tão gradual e silenciosa, as pessoas acabam por procurar o médico já numa fase avançada da doença, quando os pulmões estão mais afetados e o risco de contágio a familiares e colegas de trabalho é elevado.
Por isso, testar e rastrear quem esteve em contacto próximo com um doente ou pertence a grupos de maior risco é essencial. Permite apanhar a doença ainda no início, por vezes antes de surgirem os primeiros sintomas, tratar atempadamente e travar novas cadeias de transmissão.
Grande parte das infeções por tuberculose não estão activas (infeções latentes) e não estão associadas a quaisquer sintomas. Que estratégias estamos a adoptar para identificar estes casos?
Seguimos as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), focando o rastreio onde o risco é maior. Isso inclui o círculo próximo de doentes com tuberculose ativa e pessoas com o sistema imunitário fragilizado, tais como doentes com VIH, com insuficiência renal em diálise, transplantados ou a fazer tratamentos imunossupressores. Abrange também profissionais de saúde e grupos em situação de maior vulnerabilidade, como pessoas sem-abrigo, a população reclusa, utilizadores de drogas e migrantes vindos de países onde a doença é mais frequente, sobretudo os que vivem em acolhimentos comunitários.
Esta abordagem permite-nos identificar a doença numa fase muito inicial, quando os sintomas ainda são quase impercetíveis, mas em que a radiografia ao tórax já mostra alterações. Detetar a infeção neste ponto significa iniciar o tratamento mais cedo e evitar que a tuberculose se continue a espalhar na comunidade.
Acredita que ainda existe um estigma considerável em redor da tuberculose? De que forma é que esse preconceito afasta as pessoas dos cuidados de saúde e como podemos, enquanto sociedade, combatê-lo?
Infelizmente, o preconceito em torno da tuberculose continua muito presente. Aquando do diagnóstico, muitos doentes sentem na pele o afastamento da família, dos amigos e dos colegas de trabalho. O medo do contágio faz com que a própria comunidade acabe por os isolar e ostracizar.
Como a população ainda sabe pouco sobre a tuberculose, o desconhecimento gera receio em vez de empatia. Pessoas que já estão fragilizadas pela doença ficam ainda mais desprotegidas ao perderem a sua rede de apoio social. No ambiente laboral, o risco de isolamento ou até de perda de emprego é real, o que acentua a sua vulnerabilidade.
Combater este estigma exige literacia em saúde: precisamos de explicar à comunidade o que é a doença, como agir perante sintomas e onde fazer o rastreio. É fundamental reforçar a mensagem principal: a tuberculose tem cura e, se diagnosticada a tempo, não deixa sequelas.
Por fim, este trabalho começa nos próprios serviços de saúde. Os profissionais têm de estar preparados para acolher e orientar estes doentes de forma humanizada, garantindo que o sistema de saúde é um porto seguro e não mais uma barreira para quem precisa de ajuda.
A tecnologia no diagnóstico da tuberculose tem evoluído significativamente. Na sua opinião, como é que o rastreio ativo e a evolução das tecnologias de diagnóstico têm transformado a capacidade de travar a cadeia de transmissão?
Hoje em dia, os testes de biologia molecular trazem-nos uma enorme vantagem: permitem detetar a tuberculose muito mais cedo e com rapidez, mesmo quando a quantidade de bactérias ainda é reduzida, sem ser preciso esperar semanas pelos resultados de cultura em laboratório. Contudo, a tecnologia só funciona ao seu melhor nível se os profissionais de saúde souberem reconhecer os sinais iniciais da doença e colher as amostras corretas.
Diagnosticar cedo é a forma mais eficaz de cortar as cadeias de contágio. Também no caso da tuberculose latente, ou seja, quando a pessoa tem a infeção, mas ainda não desenvolveu a doença, o diagnóstico tornou-se mais simples e preciso graças aos testes do tipo IGRA. Quanto melhor detetarmos estes casos entre os contactos próximos e as populações de risco, mais pessoas podemos tratar a tempo.
O tratamento preventivo da tuberculose latente serve precisamente para evitar que a infeção evolua para a doença ativa. Os tratamentos tradicionais são longos e podem causar efeitos secundários, o que leva muitos doentes a abandoná-los. No entanto, já existem opções mais curtas, de apenas um mês, que têm menos efeitos secundários e tornam a adesão muito mais fácil. Apesar de serem tratamentos mais caros, a sua utilização permite tratar mais pessoas em menos tempo, aliviando a pressão sobre os serviços de saúde e reduzindo significativamente o aparecimento de novos doentes no futuro.
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu metas ambiciosas para a eliminação da tuberculose a nível global através da estratégia 'End TB'. Considerando o plano nacional de combate à doença, em que ponto se encontra Portugal no cumprimento destes objetivos e o que nos falta para lá chegar?
Os dados do Plano Nacional da Tuberculose mostram que, em termos gerais, o número de casos em Portugal tem vindo a diminuir. No entanto, nas grandes áreas urbanas de Lisboa e do Porto a situação é diferente: os números continuam elevados e sem uma descida consistente. Além disso, o cenário internacional, cada vez mais marcado por conflitos armados e por uma forte mobilidade de pessoas vindas de países onde a tuberculose é muito frequente, torna imprevisível a trajetória da doença e dificulta o cumprimento das metas da OMS.
Na região de Lisboa, este número persistente explica-se pela combinação de vários fatores: a elevada densidade populacional, a concentração de comunidades migrantes originárias de zonas de alta incidência e a existência de grupos a viver em situações de grande carência económica e social. É precisamente este ecossistema de vulnerabilidade que cria o terreno fértil para a propagação da doença.
Para responder a este desafio, no Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) Dr. Ribeiro Sanches temos reforçado a realização de rastreios, priorizando as populações de maior risco. Ainda assim, é preciso ser realista: a menos que haja uma melhoria significativa no contexto socioeconómico nacional e global na próxima década, dificilmente atingiremos na totalidade as metas globais de eliminação da tuberculose estabelecidas pela OMS.
Conforme referiu, há populações mais vulneráveis, como pessoas imunocomprometidas, doentes crónicos ou em situação de sem-abrigo, bem como a população migrante que muitas vezes chega sem histórico de vacinação ou acesso a cuidados preventivos ou que têm como origem zonas onde a prevalência da infeção por tuberculose é muito elevada. O que está a ser feito para chegar a estas comunidades e quebrar barreiras no acesso ao rastreio, de forma a garantir um acompanhamento equitativo?
Desde 2023, o CDP Dr. Ribeiro Sanches, em parceria com a Saúde Pública, tem vindo a reforçar os rastreios junto de quem esteve em contacto com doentes. Explicamos a importância de fazer o rastreio e de realizar o tratamento preventivo quando identificamos a infeção latente. Isto permitiu-nos alargar a atuação além das famílias, chegando a empresas e entidades públicas para travar o contágio logo na origem e evitar o aparecimento de novos casos ativos.
Facilitámos também o acesso aos nossos serviços para incentivar as pessoas a fazerem os testes e a cumprirem o tratamento preventivo. Atendemos todas as pessoas encaminhadas por outros serviços de saúde e também quem nos procura por iniciativa própria com sintomas ou receio de ter estado exposto. Consoante a avaliação, fazemos o rastreio da doença ou da infeção latente. A nossa atuação passa muito pelo trabalho no terreno: mantemos parcerias com instituições de solidariedade social e comunitárias para sinalizar e encaminhar pessoas em situação de maior risco. Contamos ainda com uma unidade móvel que faz rastreios radiológicos em prisões da área metropolitana de Lisboa, centros de acolhimento e instituições de apoio social. O resultado destas estratégias reflete-se nos números: nos últimos três anos, aumentámos significativamente o diagnóstico e o tratamento preventivo da tuberculose latente, alinhados com o objetivo da OMS de reduzir novos casos no futuro.
Que mensagem final gostaria de deixar à sociedade sobre a importância do diagnóstico atempado e do apoio contínuo ao doente durante o tratamento?
A grande mensagem é esta: a tuberculose é uma doença infeciosa que tem cura se for tratada de forma adequada. Com o diagnóstico e o acompanhamento certos, passa a ser apenas um problema de saúde temporário, sem ter de deixar marcas ou sequelas no futuro.
Perante a suspeita de sintomas ou se esteve em contacto com alguém doente, não hesite em procurar a rede nacional de Centros de Diagnóstico Pneumológico (CDP), em Lisboa, o CDP Dr. Ribeiro Sanches, independentemente da sua situação social ou económica. Todos os exames e tratamentos para a tuberculose são totalmente gratuitos, e os CDPs garantem um acompanhamento personalizado, humano e contínuo até à cura total.
NP-PT-00441 - outubro 2026