Alzheimer: Um desafio para toda a Sociedade
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Convidado Especial:
Miguel Tábuas-Pereira, Presidente do Grupo de Estudos do Envelhecimento Cerebral e Demência
A Doença de Alzheimer rouba a memória e a capacidade cognitiva, ao mesmo tempo que transforma de forma insidiosa a vida dos doentes e das suas famílias.
"Uma perda lenta, mas inexorável, associada a uma enorme impotência de vermos uma pessoa que amamos perder as memórias que definem a sua identidade."
Estas palavras de Miguel Tábuas-Pereira, Presidente do Grupo de Estudos do Envelhecimento Cerebral e Demência, capturam a essência devastadora da Doença de Alzheimer.
No âmbito do Dia Mundial da Doença de Alzheimer, mergulhamos numa conversa com Miguel Tábuas-Pereira, que nos guia pelos complexos desafios da doença, desde os obstáculos iniciais até ao impacto emocional, financeiro e social nos cuidadores.
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Quais são os maiores obstáculos que os doentes e as suas famílias encontram ao longo do percurso da Doença de Alzheimer, desde os primeiros sintomas até às fases mais avançadas?
A Doença de Alzheimer tem diversas fases, cada uma com vários obstáculos que se colocam aos doentes, famílias e pessoas que tratam destes doentes.
No início, como a Doença de Alzheimer se inicia insidiosamente e as pessoas têm, frequentemente, ausência de perceção das dificuldades, perde-se algum tempo desde os primeiros sintomas até à primeira vez que se procura ajuda médica por causa destes problemas. Depois, como o doente muitas vezes nega dificuldades e, no início da doença, numa conversa superficial é difícil de detetar os sinais, os sintomas podem ser atribuídos a outras causas. O mais comum é atribuir-se a depressão, porque a doença traz também alguma apatia.
Depois, quando os défices são identificados, há a dificuldade de se obter um diagnóstico preciso. Como até este momento o diagnóstico preciso era feito apenas através de exames pouco acessíveis, ou o doente recebe um diagnóstico de demência no sentido lato, ou pode receber um diagnóstico de Doença de Alzheimer e não ser essa a causa das suas dificuldades de memória. Chegar a um médico especializado neste tipo de doenças não é fácil, mas é importante para que a doença seja devidamente identificada e gerida.
Com o avançar da doença, a pessoa com Doença de Alzheimer e a família vão precisando de cada vez mais apoio. Fazem falta sítios dedicados, especializados nesta doença, como centros de estimulação cognitiva, serviços de apoio à família, instituições preparadas para as particularidades desta doença… A perda de autonomia cada vez maior, leva a que a família tenha que dar cada vez mais suporte, e vigilância. As manifestações neuropsiquiátricas, como flutuações de humor, a irritabilidade, a apatia, as alterações do sono e do apetite, a agressividade, etc. são com o avançar da doença o problema maior.
Qual o impacto emocional, financeiro e social da Doença de Alzheimer não só para o doente, mas, principalmente, para o seu cuidador? O que poderia ser melhorado para estas pessoas?
Para a família, sobretudo para aquela pessoa que está ao lado, a doença é terrível. É uma perda lenta, mas inexorável, associada a uma enorme impotência de vermos uma pessoa que amamos perder as memórias que definem a sua identidade, esquecer progressivamente as pessoas que conhece, os espaços por onde anda, as tarefas que antes fazia com tanta facilidade. Traz a necessidade de estar lá para cobrir a falha e, ao mesmo tempo, tentar manter um sorriso para que o outro não se aperceba. É necessário estar cada vez mais atento, presente e vigilante. São cada vez mais as tarefas que recaem sobre a pessoa que está ao lado.
Isto é muitas vezes agravado pela ausência de consciência dos déficits do doente, que muitas vezes nega esquecimentos ou certos actos que fez. Depois o estigma que a doença tem também não ajuda a lidar com a situação. Quando uma pessoa tem este tipo de problemas é importante que seja estimulada, que fale com pessoas, que saia de casa, mas muitas vezes acaba por ficar cada vez mais isolado, dentro de casa. Do ponto de vista financeiro é um peso cada vez maior, porque cada vez são precisos mais medicamentos, mais ajudas e muitas vezes institucionalização.
Penso que há muita coisa que pode ser melhorada para lidar com estes problemas. Talvez o passo mais importante seja o diagnóstico rápido e aumentar a educação para a doença a todos os níveis, pessoas com a doença ou em risco de a ter (que somos todos), familiares e profissionais de saúde, de como lidar com ela, do que esperar, para que a família e a comunidade onde a pessoa que tem a doença se insere, possam ajudar a pessoa a manter-se independente e feliz.
Quais são os principais fatores de risco para a Doença de Alzheimer e que medidas de prevenção podemos adotar no dia a dia? Qual a importância de um estilo de vida saudável neste contexto?
Hoje em dia estima-se que uma grande percentagem do risco da Doença de Alzheimer seja modificável. Uma parte do risco associa-se com diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, obesidade, sedentarismo, tabagismo, abuso do álcool, que se associam a uma série de outras doenças e à saúde cerebral no global. O isolamento social, a depressão, a perda de audição e de visão também aumentam o risco. Isto está em parte ligado com talvez o principal fator, que é habitualmente referido como educação, mas é num sentido mais lato, estimulação. O nosso cérebro precisa de ser colocado em situações novas, com estímulos diferentes para se manter saudável. Manter uma vida ativa é essencial.
Há alguns estudos que mostram que o exercício e certo tipo de dietas, seja mediterrânica, seja vegetariana, se associam a um risco menor de doença. Todos estes fatores são essenciais para prevenir a Doença de Alzheimer e para manter a saúde cerebral e física.
Nos últimos anos, a ciência tem evoluído. Quais são as principais áreas de investigação em que a comunidade científica se está a focar neste momento? O que podemos esperar nos próximos 5 a 10 anos em termos de diagnóstico e potenciais novas terapias?
Neste momento estamos a atravessar uma fase de mudança de paradigma. Tem havido muitos desenvolvimentos que permitem olhar para o presente e o futuro com mais entusiasmo e esperança. Do ponto de vista do diagnóstico, têm surgido biomarcadores de sangue cada vez melhores, que nos permitem estratificar a probabilidade de uma pessoa ter Doença de Alzheimer. Isto facilita o diagnóstico mais exato de uma forma menos invasiva, mais barata e acessível, e vai alterar completamente a maneira como o caminho até um diagnóstico vai ser feito.
Temos também medicamentos que pela primeira vez mostram um efeito modificador da doença. Até agora tínhamos ao nosso dispor apenas medicamentos sintomáticos, isto é, medicamentos que melhoram os sintomas, mas não impedem o avançar do processo degenerativo e declínio cognitivo. Estão a surgir agora medicamentos que atrasam a evolução da doença. Isto é um breakthrough enorme nesta doença (e nas doenças neurodegenerativas de uma forma geral).
Olho para o futuro com grande entusiasmo, com confiança de que medicamentos cada vez mais eficazes, seguros e acessíveis vão aparecer.
Qual o impacto que o diagnóstico precoce tem na jornada do doente com Alzheimer e na sua família?
Quando a doença começa, ninguém sabe o que se passa. E é muitas vezes difícil para o doente e para a família perceber o que se passa. Identificar o que se passa é essencial para que as pessoas percebam o que se passa, e consigam navegar melhor os obstáculos que a doença traz. Não é fácil para ninguém, doente e família. Na verdade, é muito complicado e há uma aprendizagem que a doença vai trazendo, mas que por vezes seria acelerada se as pessoas procurassem informação sobre a melhor maneira de lidar com a situação. Podem parecer diferenças subtis, mas têm um impacto enorme no dia a dia desta doença. Depois, com a promessa de atraso da doença com os novos medicamentos, quanto mais cedo estes forem iniciados, maior o impacto que têm, por isso o diagnóstico precoce vai ser cada vez mais central.
Qual é o maior desafio que a sociedade portuguesa enfrenta atualmente no que diz respeito ao envelhecimento da população e ao aumento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer?
O envelhecimento da população é um desafio enorme numa série de níveis. Não é talvez percetível no dia a dia, mas os dados são claros: o número de pessoas com idades mais avançadas e sobretudo a proporção destes na população portuguesa nunca foi tão alto. Com a idade, vem uma série de problemas de saúde, nomeadamente doenças neurodegenerativas, dentro das quais a Doença de Alzheimer é a mais comum. Na verdade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é das cinco causas mais comuns de morte nos homens e mulheres em Portugal. Mas mais do que uma causa de morte, é uma causa de sofrimento e perda. É muitas vezes escondida! Por isso, a maioria de nós não terá noção dos desafios que ela traz e de quão comum é. No caso particular de Portugal, temos uma esperança média de vida das mais altas do mundo. Porém, o tempo de vida com qualidade após a reforma é bastante baixo. Para isto contribuem uma série de fatores e é fundamental que as pessoas procurem ganhar hábitos de promoção de saúde cada vez mais cedo. O risco de muitas doenças que tiram qualidade de vida pode ser reduzido com algumas alterações nos nossos comportamentos diários. É essencial ganhar consciência deste problema e tomar medidas eficazes a nível pessoal, social e político.
NP-PT-00269 - Setembro 2025